Valor de Uso
Faz tempo que venho pensando na crônica.
Em algo que seja mais grudado nas coisas,
movimento de moléculas, talvez?
e eu sei que não dá pra ser muito grudado porque aí seria a coisa,
Como os personagens do Pirandello que procuram um autor, cínicos,
Como se fosse preciso,
E viver não é.
Então eu tenho pensado no cara com uma tatuagem verde no ante-braço, dessas de presidiário
E ele tem um negócio no olhar, como se duvidasse daquela, dessa vida, essa segunda ou talvez primeira chance de se sentir amado por uma mulher que vê a felicidade em coisas simples: eles estão comprando chocolates, e eu penso em Fernando Pessoa. E eles estão comprando coca-cola e eu penso no Lixo-Luxo e no tempo do colegial. E eles estão alugando filmes e eu penso que as pessoas não alugam mais filmes e que colegial nem se chama mais colegial. E eles vão passar o sábado sentados no tapete, comendo, bebendo, e vendo filme e eu sei que deveria acontecer mais coisa pra valer uma crônica.
Mas não é preciso.
Viver, viver não é.
Mãos dadas é que são.
Necessárias.
E esquecerão dos copos,
E beberão no bico
E usarão os dedos
E a língua, e
E o alumínio
E o passado, o fracasso, o dvd parado, rolando
Esquecerão deles mesmos,
E nem precisa dizer, eles estarão sorrindo por dentro
Sem saber,
Desejo, chocolate,
E a louça por algumas horas ficará suja
E suas roupas ficarão no chão
Por alguns minutos
E por alguns segundos eu fui deus e coloquei a pele num corpo que podia nem mesmo existir e sorrio
porque esqueci a senha do cartão.


1 comentários:
Que virada linda, Diego..
Se há força inspiradora maior que dor, sofrimento, angústia?
Amor Amor Amor
"Mãos dadas é que são"
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