25/09/2011

Deus ou sapo ou conto de fadas com final feliz ou profundo é o poço do passado ou ray-ban ou autobiografia ou redundância
Para vocês



Croac Croac
Aos 26 anos descubro que o objeto que o vizinho de trás guardava debaixo do tanque é um cachorro. Ele tem uma vasilha de alumínio provavelmente tão velha quanto ele e um osso grande. O cachorro moveu o pescoço enquanto eu olhava para o ipê se curvando pelo vento. A tigela de alumínio não se moveu.
Aos 26 anos eu descubro que meu pai foi muito pobre. Que a primeira roupa bonita que se lembra é a da primeira comunhão: um terno branco arranjado pelo pai dele, meu avô. Ouvi histórias terríveis sobre meu avô. As histórias terríveis do meu pai eu pude ver. Parece que meu avô foi um assassino. Meu pai nunca me bateu. Meu avô era ateu. Meu pai me disse, na fila da tomografia, que uma das coisas mais importantes da vida é acreditar em deus. Meu pai caiu num lago, enquanto atravessava uma ponte para ir pra igreja, onde seria a cerimônia da primeira comunhão. É meu pai que me conta que a sua lembrança da roupa bonita se deve ao fato de que viu a morte pela primeira vez ali, enquanto voltava pra casa. Foi quando abriu a porteira e viu meu avô, com o cigarro na boca, escorado no batente da porta, olhando fixo pra ele. Meu pai caminhou trêmulo em sua direção, temendo a tortura, mais do que a implacável morte, e pela primeira e única vez na vida viu seu pai gargalhando. Ele olhou pro filho com o terno branco imundo e molhado e passou a mão de leve em seu rosto, parou de gargalhar, sorriu, e disse que achava o batismo o mais bonito dos sacramentos.
Aos 26 anos descubro que a mulher que amo acredita do fundo do coração em conto de fada com final feliz. Isso é bom para um sapo. Talvez o mesmo sapo que estava no lago que meu pai caiu. De uns meses pra cá o tempo virou do avesso, de ponta-cabeça, de trás pra frente, implodiu, explodiu, diz meu pai. Eu concordo com ele. Sinto na pele. Quando ela me beija. Situações diferentes. Mesmas concepções. Deus? Ipê? Comunhão? Ela me faz sair do poço. Só agora entendo o beijo da princesa. O beijo é dado de olhos fechados. Assim também é que geralmente se reza. Croac Croac. Talvez o cachorro do vizinho seja um sapo. Ou um poço. Ou meu avô. Ou meu irmão.
Aos 26 anos descubro que meu irmão nunca se esquecerá dos peixes que pegávamos no lago e soltávamos na piscina. Ele nunca entendeu como um ser pode morrer apenas por sair de um lugar sujo, escuro, barrento e cair numa piscina azul, límpida, cinematográfica. Vai ver o lago da chácara que crescemos tenha sido o lago que meu pai caíra. Meu irmão descobriu mais tarde que as pessoas bonitas, sorridentes, que faziam pose fumando nas cadeiras em volta da piscina, ou na mesa de 12 lugares de cedro do himalaia onde o baralho as hipnotizava, ele desobriu que essas pessoas mijavam na piscina límpida. Depois disso nunca mais colocamos os peixes do lago na piscina. Meu irmão, quando soube que nossos pais iriam se separar, jogou a bicicleta no buraco azul cheio de água límpida de mijo de gente imbecil. Ele também descobriu que o papai noel que trouxe aquela bicicleta também mijava na piscina. Croac Croac
Aos 26 anos de idade descubro que minha mãe, essa mulher em constantes preocupações exageradas sem sentido saía de casa de calças compridas de veludo muito bem cortadas pelo alfaiate da família mas na bolsa levava uma mini-saia de cetim para combinar com a floricultura onde trabalhava 10 horas por dia. Essa é a mesma mulher que me colocava pra fora do fusca, suspenso pela porta e o friso triangular do assoalho do carro em movimento e o sol refletia em seus cabelos e em seus óculos escuros e em seu sorriso e no asfalto e todos os garotos que jogavam bola na rua paravam pra ver a louca e seu filho que tinha o cabelo penteado pelo vento.
O mesmo vento que dobrava o ipê branco, o cachorro, o sapo, o meu pai, os mijões, meu avô, meu irmão, e os eu te amo sussurrados no banco de trás.
Aos 26 anos o sapo começa a considerar a hipótese de que deus exista. E que o final feliz seja a única coisa que realmente valha a pena nessa vida.

3 comentários:

mari disse...

pra mim né? :)

Wally disse...

Sou viciada em sapos. Em todo meu quarto deve ter uns 10 sapos espalhados. Croac croac.

Anônimo disse...

26 é bom, diego. 26 ainda é possível.

há homens que andam no mar
como se andassem na rua.
(drummond, segredo).

esse aí foi enternecedor, diego.

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