04/05/2006

UM CLOWN-BEAT - Há anos escutamos e testemunhamos discursos e fatos. A História parece uma velha gagá que vive repetindo as mesmas tolices, verborragias. Confesso que não suporto mais abrir as folhas enormes dos jornais, assistir telejornais e ouvir repórteres em emissoras de rádio. A situação é similar no cinema, no teatro e na literatura. As passeatas clamando por paz, muçulmanos entregando seus corpos ao terrorismo, judeus exterminando palestinos, miséria quase total na África, subdesenvolvimento crônico na América Latina, embargo econômico injusto que Cuba sofre, as mesmas horas de discursos do mesmo Fidel; sem deixar de mencionar as páginas de "Ciência" na imprensa: "ovo faz mal a saúde", diz um cientista renomado; "ovo faz bem", retruca outro famoso. Sem deixar a tal da cafeína pra escanteio. Sem deixar de tocar na quantidade de livros de auto-ajuda: "Jesus, o Maior Psícologo de todos os tempos", agora saiu o "Jesus, O Maior empresário de todos os tempos".
Outro dia estava caminhando pelo bairro aonde sempre insisto em morar e fiquei olhando para o muro da escola pública. Faz 5 anos que o muro necessita de reforma, a biblioteca não funciona e tem 50 alunos amontoados em cada sala. O muro da escola parecia um marcador de texto, um sinal da mesmice, da existência estéril e pobre de seres humanos que vivem como zumbis. O mais complicado é certificar que o mundo guarde semelhanças profundas com jogos de xadrez, cartas ou gamão: sabemos de cor e salteado as jogadas e aonde irá dar cada partida. E nada que solucione nada. E o problema maior é que essa mesmice causa absurdice. Quando constatamos que o mundo é, sem ilusões, sem quimeras, sem devaneios e sofismas certificamos que poder tem o absurdo. Dá vontade de sair por aí, como um clown. Sem falar, sem escrever. Apenas assumindo a condição humana de negar uma realidade: morremos de medo e pavor da liberdade. Ou talvez tornando personagem de literatura beat, até porque o mundo é uma droga e "a droga é uma droga".


Geraldo Magela Matias



2 comentários:

Márcia Nestardo disse...

Mundo Beat esclarecido.
Só resta agora eu pegar uma mochila, a mão do filhote e sair pelo mundo...
Não sei o que vamos encontrar, mas não dá pra ficar parada olhando os muros, enquanto ele cresce aprendendo minhas perspectivas.

Claudio Rosa disse...

Amém!

Ah...muito prazer.

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