21/05/2012

Mais uma carta que não será enviada


Amanhã me aposento. Nunca fui de falar. Sou gordo e tenho um neto. É pra ele que escrevo. É pra você.
Eu trabalhei por 40 anos. Amanhã me aposento. Fiquei sentado por 40 anos diante de aparelhos de televisão. Via a vida dos outros. A vida de todo mundo passava ali. Eram as câmeras da fábrica. Indústria, empresa, organização - foram muitos nomes. Trocava palavras apenas com quem revezava de turno comigo. Durava 5 segundos? Talvez 10.
Quero apenas dizer que vi seu pai morrer através das câmeras também: as câmeras da rodovia. Ele tinha 20 anos e nós sabíamos de você. Sua mãe ficou um tempo aqui perto da gente. Depois te levou pra perto dos outros avós.
Passei 20 anos indo trabalhar num emprego de merda. Gostava de estudar. Apanhei muito até os 13. Passei 20 anos indo pro trabalho como se tivesse uma viseira de cavalo na lateral do olho. Como se fosse a única coisa que eu podia fazer da vida. O tempo ia passando mas o meu mau humor não passava. E tudo que eu fazia com cara amarrada mas sorrindo por dentro acabou: vi seu pai sendo atropelado por um caminhão sem freio.
Os outros 20 anos foram muito mais difíceis. Mas passou.
Queria dizer que tudo passa. Que é tão previsível que dá medo. Que você não precisa correr nunca, que não é preciso se desesperar. É um tédio sem igual. Até que um caminhão aparece e você já não tem 20 anos.
Queria que você tivesse uma vida diferente da minha.
Venha nos visitar, à partir de amanhã eu terei muito tempo.
Ainda estamos no mesmo lugar.



10/05/2012

Epígrafe para Henrique




As folhas sabem procurar pelo sol
E as raízes procurar, procurar.

E é preciso chuva para florir.

19/04/2012

Vive a vida



Vive a vida
Calada pulsa
na calada da noite

Viva a vida
Cadela rubra
no calado breu

Vifa à viga e viha via
ja

Vive e pulula
punhado de carne
pulando de galho em galho
pus, vive a vida
calada pulsa
na calada do calado
da rubra cadela

vi, vemos
o tempo todo
sujeira

álcool, gaze e um pouco de azeite
porque ninguém é de oxigênio.

02/04/2012

A tatuagem


Desenhava nas aulas. Gostava de ouvir. Evitava ver. Fazia sentido ouvir, já que na época era falta de respeito tapar os ouvidos quando um outro estivesse cagando regra. Na época era criança e não sabia desse tal cagar com outra boca. Agora tem os fones de ouvidos. As crianças de hoje devem ser mais felizes. Apesar que os adultos serão sempre os mesmos. Vaidade.
Desenhava o que tinha na cabeça. Não o ao redor. É por isso que não acredito em nada que esteja fora de mim. Além de mim. As minhas paisagens eram todas internas. Se o de fora contribuía pra isso, pouco importava. Pouco importa. Os psicólogos que se virem com isso. A maioria das pessoas vive muito bem sem querer brincar de símbolo-significado.
Desenhava em cadernetas. As vezes anotava um som.
Nexo. Virei tatuador. Primeiro em porcos. Depois em gente. Não há muita diferença. A revolução dos bichos. Feijoada.
Só queria dizer que ontem tatuei um velho de 86 anos. O filho veio aqui e me pediu. Ele não falava, o velho. O filho falou, 260305, tatua no braço dele. Eu tatuei. Tamanho médio. Ele conseguiria ler sem óculos. Era a senha do cartão do banco. O velho tinha Alzheimer. O filho acreditava que o pai pudesse associar aquilo na pele ao dinheiro. Ele queria que o símbolo do símbolo virasse signo, fato, stricto. Mais louco que o velho.
Eu estou escrevendo um diário.
Essa é uma das coisas que quero me lembrar um dia.

19/03/2012

Itinerário


Queria que o pum
Estalo
Assim

Fosse indo foi de repente
Cai
Caí Caiu Coisa cai
natural
acontece

assim
foi
E nem sei
Se queria
Nada
assim

pum
e foi foi foi
Quando vi
Era a vida
Aos 32 me pedindo a carta
e a carteira de motorista.


Num sinal,
De duas cores.

15/02/2012

Eles passarão, Eu personagem



Busquei em vão
No porão, solitário

Sabia que uma pena
e uma mão
Não daria pro cheiro

O corpo inteiro
Queria pintar -
Nevoeiro imaginário
Sangue tripa
Tulipa catarro:
Os pés trilharam,
A mão,
Observaram.

27/01/2012

A Peça


Quarto de hospital público, ruídos, sirenes, vozes - som ambiente.
No canto direito uma enfermeira, de costas pra platéia, movimenta uma cama com rodinhas pra trás e pra frente.

No canto esquerdo, na frente:

-Mexe a perna

(paciente tenta. poucos conseguem perceber essa sensação)

Mexe. (pausa) Não consegue? Nada? Mexe. (pausa) Ok.

(paciente sempre olhando para baixo)

Sente aqui?

Paciente move a cabeça negativamente

Aqui?

Negativamente

Ok.

Médico sai pela porta - que é a do teatro.
Paciente suspira. Deita-se no leito, olha pra cima por um tempo. Vira-se de lado, pra platéia.
Cai a luz.
As cortinas ficam abertas por tempo indeterminado.

Médico acende um cigarro,
Paciente chora.

30/12/2011

Repouso


Que dia é hoje?

Eu nem olho, nem quero ver a cara
A cara da dondoca de jaleco é de bunda, bunda branca com hipoglos

Dia 4, ou 5 - começamos o ano agora, não? Me olhou depois, eu vi pelo canto do olho - continuei olhando pra bunda, a bunda me olhou, anotou alguma coisa, sorriu. Deu pra ver um pouco de merda escorrendo da boca. Ela arrumou o cabelo e pos mais hipoglos. É dia 26 de dezembro.

Desenha um relógio, aqui, senhor.
É, põe os números e marque uma hora.
Uma hora?
Uma hora.

Uma hora qualquer? Pensei, ou uma hora definida.
Por que você levou uma vagabunda pra dentro de casa? Como é que foi ter o mundo nas mãos e depois se esparramar em mijo? Quantas vezes? 4? Ao longo de uma vida? Dá tempo de cair e levantar assim, numa vida só? São bernardo, vida seca, vida úmida, vida humus. Tudo em milésimos. Tá pedindo pra desenhar o tempo, o dia, o calendário. Como você parou de fumar? Como deixou os 8 filhos? Como é a Argentina, a Índia, por que você não fez faculdade? Eu dormia bem, quando começou minha insônia, como foi minha primeira braçada na piscina? Não perguntei nada. Olhei no relógio, 12h47.

Tem caso na família?

Tem, sempre tem. Os outros é que fingem que não tem.
Tá quase dando uma hora.

Vou aumentar a dose de um e manter o outro. Vou receitar esses adesivos também.

Tá. Tchau, tchau.

Dá pra ir de ônibus? Tô meio duro.

Ônibus vazio.
Eu vivi minha vida. Deu tudo certo. Agora não consigo desenhar um relógio. Nunca fui bom de desenho. Seu irmão é que era bom, hein? Seu irmão é que fez certo. Você estudou Direito, né? Direito, uma hora definida ou uma hora qualquer? Seu irmão tá em Barcelona? Lembro do casamento dele. E como comeu mulher hein?
É o próximo ponto.
Certo.

Quer tomar um banho?
Não tem ninguém em casa?
Não sei.
Bom, vai lá, depois eu tomo.
Uma hora no relógio. Viemos tão rápido assim? E no meio do caminho só tinha o ônibus?
Você sempre gostou de água - Será que escutei isso?
Que?
Ficava tanto tempo embaixo dágua que sua mãe toda vez ficava louca, aí você subia sorrindo, o cabelo em metade da cara. Com 5 anos nadava melhor que seus irmãos.
Parece que cortou a água - foi o que ouvi.
É, parece.

Vou deitar um pouco.
Beleza.


Obrigado.

Ah, e acabou aquela pomada de por na bunda.

15/12/2011

Semiótica da Fome


E aí?
Vai morrer.
Agora?
Quer ver?

Torceu o pescoço da galinha
A galinha tremeu, olhou pra ele

Não vou comer isso aí
Não come
Credo
Mas é assim que é
Mas é ruim de ver
Compra congelada então


...
Mas e a pobreza?
Fecha a persiana, tonto.

12/12/2011

Valor de Uso


Faz tempo que venho pensando na crônica.
Em algo que seja mais grudado nas coisas,
movimento de moléculas, talvez?
e eu sei que não dá pra ser muito grudado porque aí seria a coisa,
Como os personagens do Pirandello que procuram um autor, cínicos,
Como se fosse preciso,
E viver não é.

Então eu tenho pensado no cara com uma tatuagem verde no ante-braço, dessas de presidiário
E ele tem um negócio no olhar, como se duvidasse daquela, dessa vida, essa segunda ou talvez primeira chance de se sentir amado por uma mulher que vê a felicidade em coisas simples: eles estão comprando chocolates, e eu penso em Fernando Pessoa. E eles estão comprando coca-cola e eu penso no Lixo-Luxo e no tempo do colegial. E eles estão alugando filmes e eu penso que as pessoas não alugam mais filmes e que colegial nem se chama mais colegial. E eles vão passar o sábado sentados no tapete, comendo, bebendo, e vendo filme e eu sei que deveria acontecer mais coisa pra valer uma crônica.
Mas não é preciso.
Viver, viver não é.
Mãos dadas é que são.
Necessárias.

E esquecerão dos copos,
E beberão no bico
E usarão os dedos
E a língua, e
E o alumínio
E o passado, o fracasso, o dvd parado, rolando
Esquecerão deles mesmos,
E nem precisa dizer, eles estarão sorrindo por dentro
Sem saber,
Desejo, chocolate,
E a louça por algumas horas ficará suja
E suas roupas ficarão no chão
Por alguns minutos
E por alguns segundos eu fui deus e coloquei a pele num corpo que podia nem mesmo existir e sorrio
porque esqueci a senha do cartão.
Sonho de Sangue



Quando você pára no meio do poema
É por que alguma coisa está errada

E então é melhor deixá-lo de lado por um momento, talvez alguns anos.

E você volta trêmulo, e não sabe se é o suor ou a lágrima que move,

então é possível que alguma coisa esteja errada


Então você insite em lê-lo,
Pausadamente
Delicadamente

Se esconde de si, põe a mão no rosto


Eu quero é dar uma paulada no meio do cachorro do João Cabral de Melo Neto

Porque o poema tem

24/11/2011

Vi, vi sim


Eu travei.
Vi coisas. Vi milhares de coisas que poderiam estar aqui
E elas não estavam pregadas na parede.
Na verdade algumas estavam.
Elas não estavam expostas.
Na verdade algumas estavam.
Elas não estavam em molduras e não cobravam pra serem vistas.
Se dependessem delas, elas não sairiam das trevas. O que mais é preciso além de uma cama?
Lá vem aquela mania de querer, de achar que pode. E a gente não pode. Pelo menos não devia.

Visitei desertos, asilos, bares, prostíbulos, canis imundos.
Os olhos abertos. O coração fechado.
Perguntei preço, cardápio, quis ver os dentes.
Fiz greve de fome,
Não vi artista algum.
Não vi literatura
Não vi cinema
Não vi gramática
Não vi lagos, cordilheiras, oceanos.
Não chorei, não amei, não morri.
Só não escrevi pra ver se passa.

29/10/2011

Milagre


Uma vez eu chamei por deus
e ele me disse nada.
É bom que se diga,
Eu estava engolindo água.

21/10/2011

Cada um arranca a unha que tem, de olhos fechados



Os verdadeiros poemas são escritos
de olhos fechados
e ficam perdidos
nos poemas perdidos das páginas dos livros fechados.
Olho não fala. Olha não ri.
O Verso de Um entra na corrente sanguínea do Outro,
Ctrl+c, ctrl +v:
É quando a unha de um dos dedos do seu pé é arrancada subitamente
E você não sente que há algo errado
Até que sua meia branca está ensopada de sangue.
Mesmo que sua sombra tenha virado uma bolsa de plástico
Que ora está laranja ora está amarela,
Mesmo assim você procura uma gilete
Pra fazer a barba.
Terapia


Chupo bala de hortelã
Pensando ser chiclete de canela.
Não é gostoso.

26/09/2011

Os passos


Queria injetar leveza -
sempre, nos meus passos,
dormir 2 anos seguidos
mas um termo coletivo emendar:
proibido qualquer tipo de suicídio,
fome, medo, pânico, capitalismo
ou brincadeira com bomba nuclear.

25/09/2011

Deus ou sapo ou conto de fadas com final feliz ou profundo é o poço do passado ou ray-ban ou autobiografia ou redundância
Para vocês



Croac Croac
Aos 26 anos descubro que o objeto que o vizinho de trás guardava debaixo do tanque é um cachorro. Ele tem uma vasilha de alumínio provavelmente tão velha quanto ele e um osso grande. O cachorro moveu o pescoço enquanto eu olhava para o ipê se curvando pelo vento. A tigela de alumínio não se moveu.
Aos 26 anos eu descubro que meu pai foi muito pobre. Que a primeira roupa bonita que se lembra é a da primeira comunhão: um terno branco arranjado pelo pai dele, meu avô. Ouvi histórias terríveis sobre meu avô. As histórias terríveis do meu pai eu pude ver. Parece que meu avô foi um assassino. Meu pai nunca me bateu. Meu avô era ateu. Meu pai me disse, na fila da tomografia, que uma das coisas mais importantes da vida é acreditar em deus. Meu pai caiu num lago, enquanto atravessava uma ponte para ir pra igreja, onde seria a cerimônia da primeira comunhão. É meu pai que me conta que a sua lembrança da roupa bonita se deve ao fato de que viu a morte pela primeira vez ali, enquanto voltava pra casa. Foi quando abriu a porteira e viu meu avô, com o cigarro na boca, escorado no batente da porta, olhando fixo pra ele. Meu pai caminhou trêmulo em sua direção, temendo a tortura, mais do que a implacável morte, e pela primeira e única vez na vida viu seu pai gargalhando. Ele olhou pro filho com o terno branco imundo e molhado e passou a mão de leve em seu rosto, parou de gargalhar, sorriu, e disse que achava o batismo o mais bonito dos sacramentos.
Aos 26 anos descubro que a mulher que amo acredita do fundo do coração em conto de fada com final feliz. Isso é bom para um sapo. Talvez o mesmo sapo que estava no lago que meu pai caiu. De uns meses pra cá o tempo virou do avesso, de ponta-cabeça, de trás pra frente, implodiu, explodiu, diz meu pai. Eu concordo com ele. Sinto na pele. Quando ela me beija. Situações diferentes. Mesmas concepções. Deus? Ipê? Comunhão? Ela me faz sair do poço. Só agora entendo o beijo da princesa. O beijo é dado de olhos fechados. Assim também é que geralmente se reza. Croac Croac. Talvez o cachorro do vizinho seja um sapo. Ou um poço. Ou meu avô. Ou meu irmão.
Aos 26 anos descubro que meu irmão nunca se esquecerá dos peixes que pegávamos no lago e soltávamos na piscina. Ele nunca entendeu como um ser pode morrer apenas por sair de um lugar sujo, escuro, barrento e cair numa piscina azul, límpida, cinematográfica. Vai ver o lago da chácara que crescemos tenha sido o lago que meu pai caíra. Meu irmão descobriu mais tarde que as pessoas bonitas, sorridentes, que faziam pose fumando nas cadeiras em volta da piscina, ou na mesa de 12 lugares de cedro do himalaia onde o baralho as hipnotizava, ele desobriu que essas pessoas mijavam na piscina límpida. Depois disso nunca mais colocamos os peixes do lago na piscina. Meu irmão, quando soube que nossos pais iriam se separar, jogou a bicicleta no buraco azul cheio de água límpida de mijo de gente imbecil. Ele também descobriu que o papai noel que trouxe aquela bicicleta também mijava na piscina. Croac Croac
Aos 26 anos de idade descubro que minha mãe, essa mulher em constantes preocupações exageradas sem sentido saía de casa de calças compridas de veludo muito bem cortadas pelo alfaiate da família mas na bolsa levava uma mini-saia de cetim para combinar com a floricultura onde trabalhava 10 horas por dia. Essa é a mesma mulher que me colocava pra fora do fusca, suspenso pela porta e o friso triangular do assoalho do carro em movimento e o sol refletia em seus cabelos e em seus óculos escuros e em seu sorriso e no asfalto e todos os garotos que jogavam bola na rua paravam pra ver a louca e seu filho que tinha o cabelo penteado pelo vento.
O mesmo vento que dobrava o ipê branco, o cachorro, o sapo, o meu pai, os mijões, meu avô, meu irmão, e os eu te amo sussurrados no banco de trás.
Aos 26 anos o sapo começa a considerar a hipótese de que deus exista. E que o final feliz seja a única coisa que realmente valha a pena nessa vida.

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