Eles passarão, Eu personagem
Busquei em vão
No porão, solitário
Sabia que uma pena
e uma mão
Não daria pro cheiro
O corpo inteiro
Queria pintar -
Nevoeiro imaginário
Sangue tripa
Tulipa catarro:
Os pés trilharam,
A mão,
Observaram.
Espasmobanal
Diego Nathan
15/02/2012
27/01/2012
A Peça
Quarto de hospital público, ruídos, sirenes, vozes - som ambiente.
No canto direito uma enfermeira, de costas pra platéia, movimenta uma cama com rodinhas pra trás e pra frente.
No canto esquerdo, na frente:
-Mexe a perna
(paciente tenta. poucos conseguem perceber essa sensação)
Mexe. (pausa) Não consegue? Nada? Mexe. (pausa) Ok.
(paciente sempre olhando para baixo)
Sente aqui?
Paciente move a cabeça negativamente
Aqui?
Negativamente
Ok.
Médico sai pela porta - que é a do teatro.
Paciente suspira. Deita-se no leito, olha pra cima por um tempo. Vira-se de lado, pra platéia.
Cai a luz.
As cortinas ficam abertas por tempo indeterminado.
Médico acende um cigarro,
Paciente chora.
Quarto de hospital público, ruídos, sirenes, vozes - som ambiente.
No canto direito uma enfermeira, de costas pra platéia, movimenta uma cama com rodinhas pra trás e pra frente.
No canto esquerdo, na frente:
-Mexe a perna
(paciente tenta. poucos conseguem perceber essa sensação)
Mexe. (pausa) Não consegue? Nada? Mexe. (pausa) Ok.
(paciente sempre olhando para baixo)
Sente aqui?
Paciente move a cabeça negativamente
Aqui?
Negativamente
Ok.
Médico sai pela porta - que é a do teatro.
Paciente suspira. Deita-se no leito, olha pra cima por um tempo. Vira-se de lado, pra platéia.
Cai a luz.
As cortinas ficam abertas por tempo indeterminado.
Médico acende um cigarro,
Paciente chora.
30/12/2011
Repouso
Que dia é hoje?
Eu nem olho, nem quero ver a cara
A cara da dondoca de jaleco é de bunda, bunda branca com hipoglos
Dia 4, ou 5 - começamos o ano agora, não? Me olhou depois, eu vi pelo canto do olho - continuei olhando pra bunda, a bunda me olhou, anotou alguma coisa, sorriu. Deu pra ver um pouco de merda escorrendo da boca. Ela arrumou o cabelo e pos mais hipoglos. É dia 26 de dezembro.
Desenha um relógio, aqui, senhor.
É, põe os números e marque uma hora.
Uma hora?
Uma hora.
Uma hora qualquer? Pensei, ou uma hora definida.
Por que você levou uma vagabunda pra dentro de casa? Como é que foi ter o mundo nas mãos e depois se esparramar em mijo? Quantas vezes? 4? Ao longo de uma vida? Dá tempo de cair e levantar assim, numa vida só? São bernardo, vida seca, vida úmida, vida humus. Tudo em milésimos. Tá pedindo pra desenhar o tempo, o dia, o calendário. Como você parou de fumar? Como deixou os 8 filhos? Como é a Argentina, a Índia, por que você não fez faculdade? Eu dormia bem, quando começou minha insônia, como foi minha primeira braçada na piscina? Não perguntei nada. Olhei no relógio, 12h47.
Tem caso na família?
Tem, sempre tem. Os outros é que fingem que não tem.
Tá quase dando uma hora.
Vou aumentar a dose de um e manter o outro. Vou receitar esses adesivos também.
Tá. Tchau, tchau.
Dá pra ir de ônibus? Tô meio duro.
Ônibus vazio.
Eu vivi minha vida. Deu tudo certo. Agora não consigo desenhar um relógio. Nunca fui bom de desenho. Seu irmão é que era bom, hein? Seu irmão é que fez certo. Você estudou Direito, né? Direito, uma hora definida ou uma hora qualquer? Seu irmão tá em Barcelona? Lembro do casamento dele. E como comeu mulher hein?
É o próximo ponto.
Certo.
Quer tomar um banho?
Não tem ninguém em casa?
Não sei.
Bom, vai lá, depois eu tomo.
Uma hora no relógio. Viemos tão rápido assim? E no meio do caminho só tinha o ônibus?
Você sempre gostou de água - Será que escutei isso?
Que?
Ficava tanto tempo embaixo dágua que sua mãe toda vez ficava louca, aí você subia sorrindo, o cabelo em metade da cara. Com 5 anos nadava melhor que seus irmãos.
Parece que cortou a água - foi o que ouvi.
É, parece.
Vou deitar um pouco.
Beleza.
Obrigado.
Ah, e acabou aquela pomada de por na bunda.
Que dia é hoje?
Eu nem olho, nem quero ver a cara
A cara da dondoca de jaleco é de bunda, bunda branca com hipoglos
Dia 4, ou 5 - começamos o ano agora, não? Me olhou depois, eu vi pelo canto do olho - continuei olhando pra bunda, a bunda me olhou, anotou alguma coisa, sorriu. Deu pra ver um pouco de merda escorrendo da boca. Ela arrumou o cabelo e pos mais hipoglos. É dia 26 de dezembro.
Desenha um relógio, aqui, senhor.
É, põe os números e marque uma hora.
Uma hora?
Uma hora.
Uma hora qualquer? Pensei, ou uma hora definida.
Por que você levou uma vagabunda pra dentro de casa? Como é que foi ter o mundo nas mãos e depois se esparramar em mijo? Quantas vezes? 4? Ao longo de uma vida? Dá tempo de cair e levantar assim, numa vida só? São bernardo, vida seca, vida úmida, vida humus. Tudo em milésimos. Tá pedindo pra desenhar o tempo, o dia, o calendário. Como você parou de fumar? Como deixou os 8 filhos? Como é a Argentina, a Índia, por que você não fez faculdade? Eu dormia bem, quando começou minha insônia, como foi minha primeira braçada na piscina? Não perguntei nada. Olhei no relógio, 12h47.
Tem caso na família?
Tem, sempre tem. Os outros é que fingem que não tem.
Tá quase dando uma hora.
Vou aumentar a dose de um e manter o outro. Vou receitar esses adesivos também.
Tá. Tchau, tchau.
Dá pra ir de ônibus? Tô meio duro.
Ônibus vazio.
Eu vivi minha vida. Deu tudo certo. Agora não consigo desenhar um relógio. Nunca fui bom de desenho. Seu irmão é que era bom, hein? Seu irmão é que fez certo. Você estudou Direito, né? Direito, uma hora definida ou uma hora qualquer? Seu irmão tá em Barcelona? Lembro do casamento dele. E como comeu mulher hein?
É o próximo ponto.
Certo.
Quer tomar um banho?
Não tem ninguém em casa?
Não sei.
Bom, vai lá, depois eu tomo.
Uma hora no relógio. Viemos tão rápido assim? E no meio do caminho só tinha o ônibus?
Você sempre gostou de água - Será que escutei isso?
Que?
Ficava tanto tempo embaixo dágua que sua mãe toda vez ficava louca, aí você subia sorrindo, o cabelo em metade da cara. Com 5 anos nadava melhor que seus irmãos.
Parece que cortou a água - foi o que ouvi.
É, parece.
Vou deitar um pouco.
Beleza.
Obrigado.
Ah, e acabou aquela pomada de por na bunda.
15/12/2011
12/12/2011
Valor de Uso
Faz tempo que venho pensando na crônica.
Em algo que seja mais grudado nas coisas,
movimento de moléculas, talvez?
e eu sei que não dá pra ser muito grudado porque aí seria a coisa,
Como os personagens do Pirandello que procuram um autor, cínicos,
Como se fosse preciso,
E viver não é.
Então eu tenho pensado no cara com uma tatuagem verde no ante-braço, dessas de presidiário
E ele tem um negócio no olhar, como se duvidasse daquela, dessa vida, essa segunda ou talvez primeira chance de se sentir amado por uma mulher que vê a felicidade em coisas simples: eles estão comprando chocolates, e eu penso em Fernando Pessoa. E eles estão comprando coca-cola e eu penso no Lixo-Luxo e no tempo do colegial. E eles estão alugando filmes e eu penso que as pessoas não alugam mais filmes e que colegial nem se chama mais colegial. E eles vão passar o sábado sentados no tapete, comendo, bebendo, e vendo filme e eu sei que deveria acontecer mais coisa pra valer uma crônica.
Mas não é preciso.
Viver, viver não é.
Mãos dadas é que são.
Necessárias.
E esquecerão dos copos,
E beberão no bico
E usarão os dedos
E a língua, e
E o alumínio
E o passado, o fracasso, o dvd parado, rolando
Esquecerão deles mesmos,
E nem precisa dizer, eles estarão sorrindo por dentro
Sem saber,
Desejo, chocolate,
E a louça por algumas horas ficará suja
E suas roupas ficarão no chão
Por alguns minutos
E por alguns segundos eu fui deus e coloquei a pele num corpo que podia nem mesmo existir e sorrio
porque esqueci a senha do cartão.
Faz tempo que venho pensando na crônica.
Em algo que seja mais grudado nas coisas,
movimento de moléculas, talvez?
e eu sei que não dá pra ser muito grudado porque aí seria a coisa,
Como os personagens do Pirandello que procuram um autor, cínicos,
Como se fosse preciso,
E viver não é.
Então eu tenho pensado no cara com uma tatuagem verde no ante-braço, dessas de presidiário
E ele tem um negócio no olhar, como se duvidasse daquela, dessa vida, essa segunda ou talvez primeira chance de se sentir amado por uma mulher que vê a felicidade em coisas simples: eles estão comprando chocolates, e eu penso em Fernando Pessoa. E eles estão comprando coca-cola e eu penso no Lixo-Luxo e no tempo do colegial. E eles estão alugando filmes e eu penso que as pessoas não alugam mais filmes e que colegial nem se chama mais colegial. E eles vão passar o sábado sentados no tapete, comendo, bebendo, e vendo filme e eu sei que deveria acontecer mais coisa pra valer uma crônica.
Mas não é preciso.
Viver, viver não é.
Mãos dadas é que são.
Necessárias.
E esquecerão dos copos,
E beberão no bico
E usarão os dedos
E a língua, e
E o alumínio
E o passado, o fracasso, o dvd parado, rolando
Esquecerão deles mesmos,
E nem precisa dizer, eles estarão sorrindo por dentro
Sem saber,
Desejo, chocolate,
E a louça por algumas horas ficará suja
E suas roupas ficarão no chão
Por alguns minutos
E por alguns segundos eu fui deus e coloquei a pele num corpo que podia nem mesmo existir e sorrio
porque esqueci a senha do cartão.
Sonho de Sangue
Quando você pára no meio do poema
É por que alguma coisa está errada
E então é melhor deixá-lo de lado por um momento, talvez alguns anos.
E você volta trêmulo, e não sabe se é o suor ou a lágrima que move,
então é possível que alguma coisa esteja errada
Então você insite em lê-lo,
Pausadamente
Delicadamente
Se esconde de si, põe a mão no rosto
Eu quero é dar uma paulada no meio do cachorro do João Cabral de Melo Neto
Porque o poema tem
Quando você pára no meio do poema
É por que alguma coisa está errada
E então é melhor deixá-lo de lado por um momento, talvez alguns anos.
E você volta trêmulo, e não sabe se é o suor ou a lágrima que move,
então é possível que alguma coisa esteja errada
Então você insite em lê-lo,
Pausadamente
Delicadamente
Se esconde de si, põe a mão no rosto
Eu quero é dar uma paulada no meio do cachorro do João Cabral de Melo Neto
Porque o poema tem
24/11/2011
Vi, vi sim
Vi coisas. Vi milhares de coisas que poderiam estar aqui
E elas não estavam pregadas na parede.
Na verdade algumas estavam.
Elas não estavam expostas.
Na verdade algumas estavam.
Elas não estavam em molduras e não cobravam pra serem vistas.
Se dependessem delas, elas não sairiam das trevas. O que mais é preciso além de uma cama?
Lá vem aquela mania de querer, de achar que pode. E a gente não pode. Pelo menos não devia.
Visitei desertos, asilos, bares, prostíbulos, canis imundos.
Os olhos abertos. O coração fechado.
Perguntei preço, cardápio, quis ver os dentes.
Fiz greve de fome,
Não vi artista algum.
Não vi literatura
Não vi cinema
Não vi gramática
Não vi lagos, cordilheiras, oceanos.
Não chorei, não amei, não morri.
Só não escrevi pra ver se passa.
29/10/2011
21/10/2011
Cada um arranca a unha que tem, de olhos fechados
Os verdadeiros poemas são escritos
de olhos fechados
e ficam perdidos
nos poemas perdidos das páginas dos livros fechados.
Olho não fala. Olha não ri.
O Verso de Um entra na corrente sanguínea do Outro,
Ctrl+c, ctrl +v:
É quando a unha de um dos dedos do seu pé é arrancada subitamente
E você não sente que há algo errado
Até que sua meia branca está ensopada de sangue.
Mesmo que sua sombra tenha virado uma bolsa de plástico
Que ora está laranja ora está amarela,
Mesmo assim você procura uma gilete
Pra fazer a barba.
Os verdadeiros poemas são escritos
de olhos fechados
e ficam perdidos
nos poemas perdidos das páginas dos livros fechados.
Olho não fala. Olha não ri.
O Verso de Um entra na corrente sanguínea do Outro,
Ctrl+c, ctrl +v:
É quando a unha de um dos dedos do seu pé é arrancada subitamente
E você não sente que há algo errado
Até que sua meia branca está ensopada de sangue.
Mesmo que sua sombra tenha virado uma bolsa de plástico
Que ora está laranja ora está amarela,
Mesmo assim você procura uma gilete
Pra fazer a barba.
26/09/2011
25/09/2011
Deus ou sapo ou conto de fadas com final feliz ou profundo é o poço do passado ou ray-ban ou autobiografia ou redundância
Para vocês
Croac Croac
Aos 26 anos descubro que o objeto que o vizinho de trás guardava debaixo do tanque é um cachorro. Ele tem uma vasilha de alumínio provavelmente tão velha quanto ele e um osso grande. O cachorro moveu o pescoço enquanto eu olhava para o ipê se curvando pelo vento. A tigela de alumínio não se moveu.
Aos 26 anos eu descubro que meu pai foi muito pobre. Que a primeira roupa bonita que se lembra é a da primeira comunhão: um terno branco arranjado pelo pai dele, meu avô. Ouvi histórias terríveis sobre meu avô. As histórias terríveis do meu pai eu pude ver. Parece que meu avô foi um assassino. Meu pai nunca me bateu. Meu avô era ateu. Meu pai me disse, na fila da tomografia, que uma das coisas mais importantes da vida é acreditar em deus. Meu pai caiu num lago, enquanto atravessava uma ponte para ir pra igreja, onde seria a cerimônia da primeira comunhão. É meu pai que me conta que a sua lembrança da roupa bonita se deve ao fato de que viu a morte pela primeira vez ali, enquanto voltava pra casa. Foi quando abriu a porteira e viu meu avô, com o cigarro na boca, escorado no batente da porta, olhando fixo pra ele. Meu pai caminhou trêmulo em sua direção, temendo a tortura, mais do que a implacável morte, e pela primeira e única vez na vida viu seu pai gargalhando. Ele olhou pro filho com o terno branco imundo e molhado e passou a mão de leve em seu rosto, parou de gargalhar, sorriu, e disse que achava o batismo o mais bonito dos sacramentos.
Aos 26 anos descubro que a mulher que amo acredita do fundo do coração em conto de fada com final feliz. Isso é bom para um sapo. Talvez o mesmo sapo que estava no lago que meu pai caiu. De uns meses pra cá o tempo virou do avesso, de ponta-cabeça, de trás pra frente, implodiu, explodiu, diz meu pai. Eu concordo com ele. Sinto na pele. Quando ela me beija. Situações diferentes. Mesmas concepções. Deus? Ipê? Comunhão? Ela me faz sair do poço. Só agora entendo o beijo da princesa. O beijo é dado de olhos fechados. Assim também é que geralmente se reza. Croac Croac. Talvez o cachorro do vizinho seja um sapo. Ou um poço. Ou meu avô. Ou meu irmão.
Aos 26 anos descubro que meu irmão nunca se esquecerá dos peixes que pegávamos no lago e soltávamos na piscina. Ele nunca entendeu como um ser pode morrer apenas por sair de um lugar sujo, escuro, barrento e cair numa piscina azul, límpida, cinematográfica. Vai ver o lago da chácara que crescemos tenha sido o lago que meu pai caíra. Meu irmão descobriu mais tarde que as pessoas bonitas, sorridentes, que faziam pose fumando nas cadeiras em volta da piscina, ou na mesa de 12 lugares de cedro do himalaia onde o baralho as hipnotizava, ele desobriu que essas pessoas mijavam na piscina límpida. Depois disso nunca mais colocamos os peixes do lago na piscina. Meu irmão, quando soube que nossos pais iriam se separar, jogou a bicicleta no buraco azul cheio de água límpida de mijo de gente imbecil. Ele também descobriu que o papai noel que trouxe aquela bicicleta também mijava na piscina. Croac Croac
Aos 26 anos de idade descubro que minha mãe, essa mulher em constantes preocupações exageradas sem sentido saía de casa de calças compridas de veludo muito bem cortadas pelo alfaiate da família mas na bolsa levava uma mini-saia de cetim para combinar com a floricultura onde trabalhava 10 horas por dia. Essa é a mesma mulher que me colocava pra fora do fusca, suspenso pela porta e o friso triangular do assoalho do carro em movimento e o sol refletia em seus cabelos e em seus óculos escuros e em seu sorriso e no asfalto e todos os garotos que jogavam bola na rua paravam pra ver a louca e seu filho que tinha o cabelo penteado pelo vento.
O mesmo vento que dobrava o ipê branco, o cachorro, o sapo, o meu pai, os mijões, meu avô, meu irmão, e os eu te amo sussurrados no banco de trás.
Aos 26 anos o sapo começa a considerar a hipótese de que deus exista. E que o final feliz seja a única coisa que realmente valha a pena nessa vida.
Para vocês
Croac Croac
Aos 26 anos descubro que o objeto que o vizinho de trás guardava debaixo do tanque é um cachorro. Ele tem uma vasilha de alumínio provavelmente tão velha quanto ele e um osso grande. O cachorro moveu o pescoço enquanto eu olhava para o ipê se curvando pelo vento. A tigela de alumínio não se moveu.
Aos 26 anos eu descubro que meu pai foi muito pobre. Que a primeira roupa bonita que se lembra é a da primeira comunhão: um terno branco arranjado pelo pai dele, meu avô. Ouvi histórias terríveis sobre meu avô. As histórias terríveis do meu pai eu pude ver. Parece que meu avô foi um assassino. Meu pai nunca me bateu. Meu avô era ateu. Meu pai me disse, na fila da tomografia, que uma das coisas mais importantes da vida é acreditar em deus. Meu pai caiu num lago, enquanto atravessava uma ponte para ir pra igreja, onde seria a cerimônia da primeira comunhão. É meu pai que me conta que a sua lembrança da roupa bonita se deve ao fato de que viu a morte pela primeira vez ali, enquanto voltava pra casa. Foi quando abriu a porteira e viu meu avô, com o cigarro na boca, escorado no batente da porta, olhando fixo pra ele. Meu pai caminhou trêmulo em sua direção, temendo a tortura, mais do que a implacável morte, e pela primeira e única vez na vida viu seu pai gargalhando. Ele olhou pro filho com o terno branco imundo e molhado e passou a mão de leve em seu rosto, parou de gargalhar, sorriu, e disse que achava o batismo o mais bonito dos sacramentos.
Aos 26 anos descubro que a mulher que amo acredita do fundo do coração em conto de fada com final feliz. Isso é bom para um sapo. Talvez o mesmo sapo que estava no lago que meu pai caiu. De uns meses pra cá o tempo virou do avesso, de ponta-cabeça, de trás pra frente, implodiu, explodiu, diz meu pai. Eu concordo com ele. Sinto na pele. Quando ela me beija. Situações diferentes. Mesmas concepções. Deus? Ipê? Comunhão? Ela me faz sair do poço. Só agora entendo o beijo da princesa. O beijo é dado de olhos fechados. Assim também é que geralmente se reza. Croac Croac. Talvez o cachorro do vizinho seja um sapo. Ou um poço. Ou meu avô. Ou meu irmão.
Aos 26 anos descubro que meu irmão nunca se esquecerá dos peixes que pegávamos no lago e soltávamos na piscina. Ele nunca entendeu como um ser pode morrer apenas por sair de um lugar sujo, escuro, barrento e cair numa piscina azul, límpida, cinematográfica. Vai ver o lago da chácara que crescemos tenha sido o lago que meu pai caíra. Meu irmão descobriu mais tarde que as pessoas bonitas, sorridentes, que faziam pose fumando nas cadeiras em volta da piscina, ou na mesa de 12 lugares de cedro do himalaia onde o baralho as hipnotizava, ele desobriu que essas pessoas mijavam na piscina límpida. Depois disso nunca mais colocamos os peixes do lago na piscina. Meu irmão, quando soube que nossos pais iriam se separar, jogou a bicicleta no buraco azul cheio de água límpida de mijo de gente imbecil. Ele também descobriu que o papai noel que trouxe aquela bicicleta também mijava na piscina. Croac Croac
Aos 26 anos de idade descubro que minha mãe, essa mulher em constantes preocupações exageradas sem sentido saía de casa de calças compridas de veludo muito bem cortadas pelo alfaiate da família mas na bolsa levava uma mini-saia de cetim para combinar com a floricultura onde trabalhava 10 horas por dia. Essa é a mesma mulher que me colocava pra fora do fusca, suspenso pela porta e o friso triangular do assoalho do carro em movimento e o sol refletia em seus cabelos e em seus óculos escuros e em seu sorriso e no asfalto e todos os garotos que jogavam bola na rua paravam pra ver a louca e seu filho que tinha o cabelo penteado pelo vento.
O mesmo vento que dobrava o ipê branco, o cachorro, o sapo, o meu pai, os mijões, meu avô, meu irmão, e os eu te amo sussurrados no banco de trás.
Aos 26 anos o sapo começa a considerar a hipótese de que deus exista. E que o final feliz seja a única coisa que realmente valha a pena nessa vida.
18/09/2011
Sim, eu trocaria todos os poemas por alguns minutos de olhos fechados
Eu não gosto das quartas-feiras como esta;
Eu não gosto das 3 horas da tarde porque é cedo para beber e eu já estou bêbado.
É tarde para pensar nessa coisa de cagarmos, mijarmos, beijarmos, amarmos
E eu já estou pensando nisso.
E é por isso que eu odeio do fundo do meu ser esses dias que damos o nome de quartas-feiras.
No fundo é o mesmo sentimento de dar nomes aos cães.
De dar parede, teto, e chão ao tempo.
É a mesma coisa que fotografar uma bunda, um sorriso, um gemido.
É como querer cartografar o seu céu da boca e morrer de insuficiência, morrer por faltar suas pequeninas pernas enlaçadas nas minhas
É quando me esqueço de me prostituir, de que é indiferente ser sábado ou março, rico ou pobre,
caminhar ou correr.
Deus fez as pessoas alegres
E também fez as pessoas tristes.
Mas algumas pessoas são mais tristes.
E algumas pessoas mais felizes.
E você nunca vai saber de fato qual dos 5 elementos forma o soluço, o sol,
Ou um smurf de borracha abandonado no canto da sala.
Eu não gosto das quartas-feiras como esta;
Eu não gosto das 3 horas da tarde porque é cedo para beber e eu já estou bêbado.
É tarde para pensar nessa coisa de cagarmos, mijarmos, beijarmos, amarmos
E eu já estou pensando nisso.
E é por isso que eu odeio do fundo do meu ser esses dias que damos o nome de quartas-feiras.
No fundo é o mesmo sentimento de dar nomes aos cães.
De dar parede, teto, e chão ao tempo.
É a mesma coisa que fotografar uma bunda, um sorriso, um gemido.
É como querer cartografar o seu céu da boca e morrer de insuficiência, morrer por faltar suas pequeninas pernas enlaçadas nas minhas
É quando me esqueço de me prostituir, de que é indiferente ser sábado ou março, rico ou pobre,
caminhar ou correr.
Deus fez as pessoas alegres
E também fez as pessoas tristes.
Mas algumas pessoas são mais tristes.
E algumas pessoas mais felizes.
E você nunca vai saber de fato qual dos 5 elementos forma o soluço, o sol,
Ou um smurf de borracha abandonado no canto da sala.
13/09/2011
Feizbuq
1000 pessoas juntas no mundo detêm 4 trilhões de dólares.
Ninguém curtiu isso.
Mais de 3 bilhões de pessoas vivem com menos de um dólar por dia.
Ninguém curtiu isso.
O dólar subiu mas meu pinto caiu.
780 pessoas curtiram isso.
Dinheiro é um pedaço de papel. (Arnaldo Antunes)
421 pessoas curtiram isso.
Domingo. Churrasco. Casa velha, grande, com piscina. Amigos que não se viam a 10 anos.
Nada como um churrasquinho com o Léo, Marquinho, Gabi e companhia. Adoooooooooro!!
(Léo é pai de 3, não largou a cocaína e continua inexplicavelmente gordo. Marquinho perdeu uma perna num acidente de moto. Ganhou uma prótese de titânio no Caldeirão do Huck. Mesmo assim, Marquinho não está com um semblante muito leve. Todos que se aproximam dele têm a impressão de que "uma energia pesada, né? Credo". Gabi tem 28 e é call center. É depravada, virgem apenas de umbigo. Está de olho no Ronaldinho, que se separou a pouco da Ana, que foi uma amiguíssima da Gabi, a alguns anos atrás.
Pâmela era uma maconheirinha de ocasião. Adorava usar gírias e gestos masculinos da periferia.
Procura desesperadamente um computador com wi-fi. Encontra:
Nada como um churrasquinho com o Léo, Marquinho, Gabi e companhia. Adoooooooooro!!
13 pessoas curtiram isso.
Parei no sinal e dois animaizinhos me assaltaram. Um deles enfiou um estilete pelo vidro e rasgou minha orelha. Acabou com meu alargador da orelha esquerda. Doeu um pouco. Sangrou. Mas já tô bem.
80 pessoas curtiram isso.
Beckett escreveu uma peça no final da vida. Durava 2 minutos, se produzida da maneira correta:
"Ninguém (pausa). Nada (pausa longa). Eu falo, falo, falo, pra me esquecer de pensar.
1000 pessoas juntas no mundo detêm 4 trilhões de dólares.
Ninguém curtiu isso.
Mais de 3 bilhões de pessoas vivem com menos de um dólar por dia.
Ninguém curtiu isso.
O dólar subiu mas meu pinto caiu.
780 pessoas curtiram isso.
Dinheiro é um pedaço de papel. (Arnaldo Antunes)
421 pessoas curtiram isso.
Domingo. Churrasco. Casa velha, grande, com piscina. Amigos que não se viam a 10 anos.
Nada como um churrasquinho com o Léo, Marquinho, Gabi e companhia. Adoooooooooro!!
(Léo é pai de 3, não largou a cocaína e continua inexplicavelmente gordo. Marquinho perdeu uma perna num acidente de moto. Ganhou uma prótese de titânio no Caldeirão do Huck. Mesmo assim, Marquinho não está com um semblante muito leve. Todos que se aproximam dele têm a impressão de que "uma energia pesada, né? Credo". Gabi tem 28 e é call center. É depravada, virgem apenas de umbigo. Está de olho no Ronaldinho, que se separou a pouco da Ana, que foi uma amiguíssima da Gabi, a alguns anos atrás.
Pâmela era uma maconheirinha de ocasião. Adorava usar gírias e gestos masculinos da periferia.
Procura desesperadamente um computador com wi-fi. Encontra:
Nada como um churrasquinho com o Léo, Marquinho, Gabi e companhia. Adoooooooooro!!
13 pessoas curtiram isso.
Parei no sinal e dois animaizinhos me assaltaram. Um deles enfiou um estilete pelo vidro e rasgou minha orelha. Acabou com meu alargador da orelha esquerda. Doeu um pouco. Sangrou. Mas já tô bem.
80 pessoas curtiram isso.
Beckett escreveu uma peça no final da vida. Durava 2 minutos, se produzida da maneira correta:
"Ninguém (pausa). Nada (pausa longa). Eu falo, falo, falo, pra me esquecer de pensar.
01/09/2011
Imagem do dia 112
Um viaduto. Entroncamento de braços largos de concreto e asfalto.
Velocidade permitida: alta.
Você está num teleférico e ele pára. Você se desespera por um momento.
Depois pára e observa o fluxo:
Todos os veículos, carros, caminhões, motos, ônibus, tudo desaparece. Parcialmente.
Seus passageiros continuam na mesma posição, sentados, trocando de marcha,
Pernas esticadas, cruzadas, uns lendo, outros conversando, rindo, cantando, fumando
Sentados, acelerando, olhando pelo retrovisor, movendo-se pelo itinerário, pelo entrocamento de braços largos de concreto e asfalto, com a mesma velocidade: alta - sem as armaduras:
Sem aço ou vidros ou estofados.
O teleférico volta a funcionar, como um coice. Você segue em frente pelo cabo.
Não sabe se o mundo ali em baixo voltou ao normal.
Não precisa saber, na verdade.
Um viaduto. Entroncamento de braços largos de concreto e asfalto.
Velocidade permitida: alta.
Você está num teleférico e ele pára. Você se desespera por um momento.
Depois pára e observa o fluxo:
Todos os veículos, carros, caminhões, motos, ônibus, tudo desaparece. Parcialmente.
Seus passageiros continuam na mesma posição, sentados, trocando de marcha,
Pernas esticadas, cruzadas, uns lendo, outros conversando, rindo, cantando, fumando
Sentados, acelerando, olhando pelo retrovisor, movendo-se pelo itinerário, pelo entrocamento de braços largos de concreto e asfalto, com a mesma velocidade: alta - sem as armaduras:
Sem aço ou vidros ou estofados.
O teleférico volta a funcionar, como um coice. Você segue em frente pelo cabo.
Não sabe se o mundo ali em baixo voltou ao normal.
Não precisa saber, na verdade.
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